Princesa Yirak

Quando o francês Claude Robert de Maurepas entrou no Brasil pelo porto de Guajará-Mirim, em Rondônia, a bordo de uma catraia, embarcação que fazia a travessia entre aquele local e Guayaramerín, na Bolívia, sua documentação consular informava que era engenheiro.

Claude de Maurepas
Fotografia de Ficha Consular de Qualificação, 1959
Fonte: FamilySearch

Meses depois, em julho de 1959, ele se encontrava hospedado no Hotel Amazonas, em Manaus, exercendo uma profissão bem diferente: anunciando-se como Conde de Maurepas (mesmo título de um ministro do Rei Luís XVI de França), procurou o "Jornal do Comércio" para avisar "as elegantes" da cidade que ele e seu conterrâneo Tony estavam disponíveis "para servirem a qualquer momento a elegante mulher amazonense, criando, projetando e desenhando modelos no mais puro estilo francês, com absoluta exclusividade para cada cliente".
"Tony é o desenhista inimitável, que passa para a realidade as criações ditadas por Maurepas. São dois artistas franceses de fama internacional que já funcionaram na requintada Boutique de Ma Griffe, em Paris, e La Opera, de Montevidéu e Buenos Aires.", publicou o "Jornal do Comércio" em 22 de julho de 1959.
A dupla voltou a Manaus em abril de 1960. Dessa vez, Tony foi apresentado à imprensa como Visconde Antony de Valois d'Epignoy, filho de Claude de Maurepas. Ao currículo do Conde foram acrescentados os cargos de ex-diretor da Maison Chanel e ex-gerente da Ma Griffe. Ele também se dizia proprietário de casas de modas em Paris, Montevidéu e Belém - nessa cidade, além de servir a "alta sociedade paraense", trabalhava com antiguidades.
Lembrando que a Miss Amazonas 1959 Nora Sabbá já vestira modelos de sua confecção, o "Jornal do Comércio" divulgou com destaque a exposição de alta costura que Maurepas e Tony estavam apresentando no Palácio da Moda, na Avenida Eduardo Ribeiro: uma coleção de primavera com "uns vinte vestidos de passeio, dez de noiva, quinze para coquetel e várias blusas e shorts, tudo num valor aproximado de trezentos mil cruzeiros" - todos modelos criados pelo Visconde e confeccionados pelo Conde.
No mesmo período, Tony lecionou "aulas e cursos de corte e costura de senhora" no Clube Amazontel.

"Jornal do Comércio", Manaus, AM, 03 de abril de 1960
Fonte: Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ

Além do evidente mistério em torno da dupla de costureiros parisienses, de cujas histórias não conseguimos confirmações, há um fato intrigante sobre essa segunda passagem por Manaus: naquela ocasião, Claude de Maurepas dividia suas atividades na alta costura com uma função inusitada - era o diretor artístico da prova de faquirismo realizada pela Princesa Yirak, "filha do famoso cacique inca Marau Yirak".
Conhecida como "a Mulher Serpente", a faquireza peruana - então contando vinte e oito anos de idade - pretendia se tornar campeã mundial de jejum passando cento e vinte dias sem comer encerrada numa câmara de vidro, na companhia de dez cobras. Segundo Maurepas, havia um prêmio de vinte mil dólares sendo oferecido pela Associação Mundial de Fakirismo a quem realizasse tal feito.
Sua exibição se diferenciava das de outros jejuadores por ser itinerante. Tendo iniciado sua prova em Belém, na Praça da República, em 10 de março de 1960, empresariada pelo capitão-major Martino Guido e com parte da renda em benefício da Maternidade do Povo, Yirak viajou para Manaus a bordo do navio Augusto Montenegro - sempre dentro de sua câmara de vidro - após trinta dias de jejum, sem interrompê-lo. Na capital amazonense, passaria cerca de quarenta dias. Ao final desse prazo, partiria - ainda no interior da câmara de vidro - para Caracas, na Venezuela, onde se exibiria até concluir os cento e vinte dias prometidos.
Em exposição na sede do Nacional Futebol Clube a partir de 10 de abril de 1960, Yirak bebia um copo de refresco de maracujá de hora em hora e também podia tomar água gelada, "sob o controle da Polícia e de um médico".

"Jornal do Comércio", Manaus, AM, 02 de abril de 1960
Fonte: Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ

Esbarramos em várias dificuldades que nos impediram de obter maiores informações sobre a prova itinerante da Princesa Yirak.
Em 1960, o interesse público pelo faquirismo já não era o mesmo, o que tornava a repercussão do espetáculo menor e, consequentemente, diminuía o número de dados divulgados sobre o jejum e a jejuadora. Além disso, temos pouco ou nenhum acesso remoto a jornais de Belém, Manaus e Caracas dessa época - as melhores fontes que poderíamos ter.
Ainda não sabemos quanto tempo Yirak permaneceu em Manaus nem se realmente alcançou seu objetivo em Caracas. Sua identidade real e vida pessoal também são desconhecidas por nós.
Atualizações serão publicadas quando novos detalhes surgirem.

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