Na décima quarta madrugada de uma prova de jejum que deveria durar quarenta dias, a faquireza Marilú soltou um vidro da urna em que estava encerrada e fugiu, deixando dois bilhetes.
Isso aconteceu em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, em janeiro de 1958. Desde o final de dezembro, a jovem artista estava se exibindo deitada sobre cacos de garrafa dentro de uma urna de vidro instalada em um salão na Rua General Glicério.
Um dos bilhetes era dirigido ao proprietário do salão, Felice de Elia, também financiador parcial da apresentação. A ele, Marilú explicava que tivera que fugir por não ter dinheiro para pagar o aluguel e pedia que devolvesse a urna à Prefeitura sem mexer no lacre do cadeado que a fechava.
O outro bilhete trazia seu pedido de desculpas ao público: "Em catorze dias de sacrifício, a renda que tive não deu para pagar as despesas de propaganda e pensão. O povo desta cidade, ao passar pela porta do salão onde eu estava, ainda fazia críticas. Não houve cooperação. Eu fico mais tempo, tenho certeza que não ganharia para o levantamento de meu corpo e ficaria empenhada sem poder sair desta cidade. Então tomei esta deliberação. Abandonei minha urna. Assim, não dou mais prejuízos a ninguém. Desculpem se fui um pouco grosseira. O. A. M. - A Fakir".
Fonte: Acervo da família de Marilú
As iniciais O. A. M. guardavam o nome real de Marilú: Otamires Aires Maranhão. Nascida em 02 de fevereiro de 1938 em terras maranhenses, ela jejuou várias vezes com êxito antes dessa ocasião - no Maranhão, no Território do Acre, em Penápolis (São Paulo) e Porto União (Santa Catarina), onde passou dez dias sem comer sob a supervisão do Dr. José Jorge, trajando um maiô verde de duas peças, ao lado de uma cobra caninana, em março de 1956.
Em São José do Rio Preto, o empresário de Marilú era Antonio Rodrigues Ferreira e 30% dos lucros do espetáculo seriam reservados para o Asilo São Vicente. Após sua fuga, a polícia apreendeu no local os talões de entrada, constatando que apenas seiscentos e cinquenta e seis bilhetes tinham sido vendidos, a quinze cruzeiros cada um. O valor arrecadado foi levado pela faquireza, que não foi encontrada.
Vistoria da polícia de São José do Rio Preto na urna abandonada por Marilú
"Folha da Tarde", São Paulo, SP, 11 de janeiro de 1958
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP
Não achamos uma pista concreta sobre o destino imediato de Marilú após seu espetáculo frustrado em São José do Rio Preto.
Perto dali, em fevereiro de 1958, em Jaú, surgiria uma certa "senhorita indiana" jejuando durante quarenta e cinco dias em um salão situado na Rua Edgard Ferraz, defronte à Praça Siqueira Campos. Ela dividia sua urna de vidro com uma cobra, em torno da qual a divulgação da prova fazia terror, conforme publicou o jornal "Comércio do Jahu": "A cobra não é venenosa, e tem se movimentado, principalmente à noite, e o perigo está nos seus movimentos, e dela poder se enrolar no pescoço da moça. É por isso que o secretário deve estar sempre atento para evitar que aconteça o desagradável incidente.".
A proximidade das duas cidades nos faz pensar que a "senhorita indiana" poderia ser a própria Marilú. O ocorrido recente justificaria que seu nome não apareça no noticiário de Jaú, visto que a polícia de Rio Preto continuava em seu encalço. Porém, não nos deparamos com nenhum indício que confirme ou descarte essa suspeita.
Em 2016, fizemos contato com um filho de Marilú, que nos contou que ela faleceu em Goiânia em 1998. De acordo com ele, mesmo após se casar e formar sua família, sua mãe teria continuado a se apresentar em números de faquirismo eventualmente, principalmente na televisão goiana.
Fonte: Acervo da família de Marilú


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