Najja

Uma prova de jejum de cento e onze dias realizada pelo faquir Silki no centro de São Paulo entre abril e agosto de 1969 conseguiu despertar um pouco a curiosidade pública sobre o faquirismo, adormecida desde o início da década. Aqui e ali, surgiram jejuadores se propondo a repetir sua façanha em exibições com durações menores.
Nessa mesma época, despontava na imprensa uma nova faquireza brasileira, algo raro naquele período: Najja, uma jovem que foi manchete de primeira página no jornal "Notícias Populares" em dezembro de 1969 - "Com pregos nas mãos e sem comer nada há 10 dias: Moça de SP com 20 anos crucificada".

"Notícias Populares", São Paulo, SP, 15 de dezembro de 1969
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP

Em relação às suas antecessoras, sua forma de se apresentar era inovadora.
Deitada sobre uma cruz de madeira, com uma corrente prendendo sua perna esquerda e as mãos supostamente pregadas, Najja estava exposta jejuando em uma sala na Avenida Sampaio Vidal, em Marília, no interior paulista, desde o dia 05 de dezembro. Alimentos sólidos eram proibidos e ela só podia ingerir laranjada. Sob a proteção e a vigilância de policiais que se revezavam de seis em seis horas no espaço, foi visitada por milhares de pessoas.
Ao fim de dez dias, o próprio Prefeito de Marília, Octávio Barreto Prado, compareceu ali para libertá-la de seu suplício.
"Najja acha que a maior dificuldade existente nessas provas é a de mobilidade do corpo, o que provoca fortes dores, obrigando-a, às vezes, a pedir massagens nos locais mais doloridos.", contou o "Notícias Populares", "O interesse é tão grande que muita gente chega a desmaiar, enquanto outros chegam a chamá-la de santa.".
Isso não era novidade para ela, conforme relatou ao "Diário da Manhã" de Ribeirão Preto, ao jejuar nessa outra cidade paulista em 1970: "Quando eu fiz uma tournée pelo interior goiano, estive em contato com gente de pouca cultura. Lá, por exemplo, vi coisas assim como um fazendeiro que me ofereceu o que eu quisesse para livrar-lhe de algum mau-olhado que o perseguia. Tinha perdido as plantações de muitas cabeças de gado e acreditava que eu pudesse fazer qualquer milagre. Numa cidade onde nunca se tinha visto um faquir, quanto menos uma faquireza, eu fui, sem querer, até beatificada. No mesmo lugar, uma senhora pediu que a deixassem entrar na sala onde eu estava. Implorou isso e conseguiu entrar sem ter o ingresso. Sabe o que ela fez? Disse que estava seriamente doente e que somente eu seria capaz de salvá-la. Ficou durante muito tempo orando em silêncio, com as mãos sobre a minha testa; por fim, saiu dizendo que tinha sido concretizado o milagre: que estava salva.".

Najja
Fonte: Acervo pessoal de Najja

O que boa parte do povo de Marília não imaginava é que Najja era uma conterrânea, nascida ali mesmo com o nome de Auta Messias, em 24 de setembro de 1949.
Sua vocação para o faquirismo vinha da infância, de acordo com o "Diário da Manhã" de Ribeirão Preto: "A Índia sempre a fascinou. Quando ainda menina, já se interessava por aquele país misterioso e exótico. As leituras, os rituais nas mesquitas, onde o muçulmanos se concentram dias e dias nas orações, permanecendo com os punhos fortemente cerrados até que as unhas lhes penetrem na carne, sempre foram a sua grande paixão. (...) Fascinada pelas práticas de ilusionismo e magia, que ela aprendeu lendo os livros dedicados à Índia, Najja ingressou inicialmente na Associação dos Mágicos de São Paulo. Lá ficou conhecendo Silki, que lhe ensinou os truques da profissão. (...) Najja é filha de protestantes, da Congregação Cristã. Ela conta que ainda hoje tem de conter algumas exaltações de seus pais, mesmo quando está em plenas atividades.".

Najja
Fonte: Acervo pessoal de Najja

Tivemos a oportunidade de recolher vários depoimentos de Najja sobre sua carreira como faquireza a partir de 2017, ano em que a encontramos pela primeira vez.
Na realidade, sua aproximação com essa arte teria se dado através de um amigo mágico. A quase adolescente Auta se entusiasmou com a ideia e fez uma primeira prova de três dias de jejum, de maneira rudimentar, acorrentada a uma cama de pregos, como se fosse uma brincadeira dos dois. O negócio deu tão certo que ela começou a levar a sério e concluiu que aquilo poderia mesmo ser uma forma de sobrevivência para si e sua família, composta por seus pais e vários irmãos.

A simplicidade das primeiras provas de jejum da faquireza Najja retratada em uma das poucas fotografias que restaram da época
Fonte: Acervo pessoal de Najja

"Notícias Populares", São Paulo, SP, 15 de dezembro de 1969
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, SP

Ao longo de dois anos de atuação como jejuadora, sabemos que Najja se exibiu em São Paulo (Marília, Ribeirão Preto e Araçatuba), Rio de Janeiro (Volta Redonda), Minas Gerais (Uberaba, São Gonçalo e Santa Rita de Caldas) e Goiás (Rio Verde, Jussara, Trindade, Piracanjuba e Buriti Alegre), viajando quase sempre acompanhada por sua mãe.
Uma de suas provas mais marcantes foi a realizada no subsolo do Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, em março de 1970, com duração de 246 horas em jejum pregada numa cruz de madeira.
"Para ela, o faquirismo é apenas uma arte. Leva a sério uma profissão que oferece inúmeros caminhos para se desvirtuar.", publicou o "Diário da Manhã", "Mas a bonita Najja, de cabelos pretos e longos e que bem enganaria se dizendo hindu... prefere continuar como 'simples' faquireza, que pretende realizar nos próximos anos o seu sonho dourado: o de se exibir na Índia e no Japão.".
Assim como acontecera em Marília, o Prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Duarte Nogueira, marcou presença no evento, trancando o cadeado que prendia Najja à cruz, guardando consigo a chave dele e o abrindo ao fim do jejum.
Parte da renda foi revertida à campanha de fraternidade da cidade, o que era comum por onde a jovem passava.

Najja
Fonte: Acervo pessoal de Najja

A prova em Ribeirão Preto teve um final poético. Liberta da cruz, Najja correu para fora do subsolo do teatro. Chovia. Sem se importar, ela ganhou a rua e dançou na chuva, apesar da fraqueza natural após passar 246 horas sem comer.
Sua passagem por essa cidade mudou os rumos de sua vida. Nos bastidores do espetáculo, a artista se aproximou de pessoas ligadas ao espiritismo e teve revelações importantes sobre seu destino.
"Depois eu fui descobrir que tudo isso não passava de um teste que a Espiritualidade estava fazendo com a Auta Messias.", explicaria Najja em depoimento concedido a nós em 2020.
Mesmo tendo jejuado em público outra vez em Araçatuba, em São Paulo, em agosto de 1970, crucificada por dez dias em um salão na Rua Olavo Bilac, 244, ela já estava em processo de encerramento do ciclo de existência de sua persona faquireza.

"A Comarca", Araçatuba, São Paulo, SP, 04 de agosto de 1970
Biblioteca Pública Municipal Rubens do Amaral, Araçatuba, SP

"A Comarca", Araçatuba, São Paulo, SP, 15 de agosto de 1970
Biblioteca Pública Municipal Rubens do Amaral, Araçatuba, SP

Dedicada ao autoconhecimento espiritual, Najja dispensou um convite para se apresentar na TV japonesa, abandonou o faquirismo, assumiu diversas atividades comerciais, formou sua própria família, se tornou mãe e avó e guardou com carinho as lembranças daquela fase.
Quando publicamos a primeira edição de "Cravo na Carne - Fama e Fome" (editora Veneta, 2015), ainda não sabíamos da existência da faquireza Najja e escrevemos: "Não foram encontradas nos jornais pesquisados notícias sobre outras provas de jejum realizadas por mulheres no Brasil a partir de 1961.".
Corta para 2017. Durante uma entrevista com o sobrinho de Didio Viegas - um andarilho que viajou a pé do Rio Grande do Sul até São Paulo apenas para ver Silki jejuando no Largo do Paissandú em 1957 - falamos sobre nosso livro. Surpreso, ele nos contou que conhecera uma faquiresa em Ribeirão Preto por volta de 1970. Ficamos espantados, já que desconhecíamos totalmente que houvesse uma jejuadora atuando profissionalmente no Brasil naquele momento.
Foi como se os caminhos até Najja se abrissem para nós naquele instante. Dias depois, nos deparamos com uma notícia sobre ela publicada no jornal araçatubense "A Comarca" em 1970. A página fazia parte de um dossiê de 362 páginas do Ministério da Justiça que nada tinha a ver com faquirismo e estava disponível de forma digital no site do Arquivo Nacional.
A reportagem apontava sua raiz em Marília. Entramos em vários grupos de compra, troca e venda da cidade no Facebook e perguntamos se alguém sabia dela. Uma sobrinha de Najja retornou o contato. No final do mesmo dia, já estávamos falando com a faquireza recém-descoberta.
Nascia então a nossa amizade com uma das pessoas mais doces que conhecemos.

Najja
Fonte: Acervo pessoal de Najja

Najja no ano 2000, quando fez parte da Fraternidade dos Onze Beduínos da Estrela do Oriente, sob a guia de Mestre Kajanaim e Mestra Samira
Fonte: Acervo pessoal de Najja

A partir desse encontro, Najja participou de várias realizações nossas tendo o faquirismo como tema: conversou com o público em um debate na Noite das Faquirezas (São Paulo, 2018), fez uma ponta no documentário "Fakir" (2019), dirigido por Helena Ignez a partir da nossa pesquisa, e gravou um depoimento para o 1º Festival A Arte do Faquirismo (2020), promovido através do Instagram e do Youtube.

Depoimento de Najja gravado para o 1º Festival A Arte do Faquirismo (2020)

Najja nos bastidores das gravações do filme "Fakir" (2019), dirigido por Helena Ignez

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